O segredo da palavra alianca | Kabbalah Centre Portugal

O segredo da palavra alianca

A porção Mishpatim é, em alguns aspetos, uma continuação da Yitro, a porção anterior, na qual ocorreu a revelação no Sinai, a revelação da totalidade da Luz do Criador e da Luz da Imortalidade.

 

Cronologicamente, houve a revelação no Sinai, os Dez Mandamentos, que levou Moisés a subir a montanha por 40 dias e 40 noites e a receber o resto da Torah, o resto da Luz e da sabedoria da revelação. Mas há um momento no final da porção de Mishpatim onde se diz que Moisés escreve o que recebeu, acorda na manhã seguinte e constrói doze altares para cada uma das doze tribos - o que representa uma aproximação à Luz do Criador - e eles fazem sacrifícios nos altares para cada uma das doze tribos. E Moisés leva metade do sangue e derrama-o sobre o altar, e depois leva o que se chama Sefer ha-Brit, o livro da Aliança e lê-o aos israelitas, dizendo: "Todo o que o Criador diz, nós vamos ouvir e fazer." A seguir, Moisés pega no sangue e borrifa-o sobre os israelitas, dizendo-lhes que é o sangue através do qual o Criador fez uma Aliança com eles, os Israelitas, sobre todas essas coisas."


Então, eu quero focar-me neste conceito chamado Sefer ha-Brit, o Livro da Aliança e, mais importante, sobre o que o segredo da palavra brit traduzida literalmente como "aliança" significa para o nosso trabalho espiritual. No capítulo oito do Sefer Yetzirah, o Livro da Formação, fala-se sobre a Criação do mundo e diz-se que nele encontramos o segredo do significado de brit. E o grande Kabalista Gaon de Vilna, no seu comentário sobre o Livro da Formação, discute este segredo.

 

Encontramos brit, aliança, muitas vezes na Torah; por exemplo, a circuncisão de Abraão é chamada de aliança. Uma aliança pode ser comparada a uma pessoa que ama muito alguém e quer fazer algo para garantir que nunca se vão separar. Assim, como é possível, pergunta Gaon de Vilna, tentar criar pelo menos um vínculo que nunca pode ser separado? O que é que uma pessoa que ama muito alguém, mas que tem de se separar fisicamente dela, pode fazer para se assegurar de que elas criam um vínculo que permanecerá para sempre?

 

Uma das formas de o fazer é o indivíduo dar a essa pessoa qualquer que seja a coisa mais importante para ele ou ela. Digamos, por exemplo, que um indivíduo tem vindo a colecionar diamantes durante toda a sua vida, tendo passado os últimos 50 anos a viajar pelo mundo a colecioná-los, e tem os dez diamantes mais caros e belos do mundo. Se alguém lhe perguntasse qual é a coisa mais importante na sua vida, ele diria que é a sua coleção de diamantes. E agora ele tem um amigo que se vai embora, que ele não vai ver durante cinco anos; e ele dá ao seu amigo o seu diamante mais precioso. Então, o que Gaon de Vilna ensina é que não é realmente o objeto físico - neste caso, o diamante - que é importante. É a mente e o coração do doador ligados ao diamante, tanto que, agora, o seu amigo ficará sempre a pensar nele e vice-versa.

 

Gaon de Vilna está a explicar que esta pessoa deu ao seu amigo algo que tem todo o foco dos seus pensamentos e coração; portanto, a palavra aliança é realmente uma promessa. O conceito de aliança, diz ele, é quando a coisa mais importante para nós é dada a outra pessoa e, através dessa entrega, independentemente do que aconteça, sempre cuidaremos dessa pessoa. É uma promessa porque essa outra pessoa tem o que é mais importante para nós e, portanto, vamos querer ter a certeza que ela está segura e atendida. E assim ficamos a entender que a palavra aliança é realmente uma ação realizada, a qual cria a promessa de que não pode haver separação entre estas duas pessoas. É por isso que encontramos com tanta frequência o conceito de aliança na Torah, porque agora entendemos que uma ação realizada cria uma promessa de nunca haver separação.

 

A primeira aliança de que de ouvimos falar é durante o Dilúvio, quando o Criador estabelece uma aliança com Noé e com o resto da humanidade: que o mundo nunca mais seja completamente destruído novamente. E o segredo é que o arco-íris é a aliança. Porque o arco-íris, como explica o Zohar, é na realidade um aspeto da Luz do Criador dado a este mundo. O arco-íris é um elemento importante para a essência da Luz do Criador e, portanto, o Criador ao entregar alguma da Sua essência dando o arco-íris, nunca poderá destruir o mundo.

 

Ao compreendermos isto, podemos agora ver que o presente verdadeiro da Torah, os Dez Mandamentos e o Zohar, é a Luz dentro deles. É como se o Criador cortasse parte da Sua essência e Luz e no-las entregasse através dessas coisas. E depois o Criador diz a quem quer que seja que faça disso o seu foco na vida, para tomar essa dádiva e cuidar deles, protegê-los e dar-lhes Luz e bênçãos, porque essa pessoa tem agora algo que é o mais importante para Ele.

 

Então, podemos começar a compreender que aliança é que o Criador deu aos israelitas. E isso precisa de nos dar  todo um novo entendimento em torno do que chamamos de estudo ou conexão com a Luz da Torah, a Luz do Criador. O Criador deu-nos a Sua essência e Luz dentro deles, algo que faz com que, se nos agarrarmos a eles, quase forçamos o Criador a ter que nos proteger e a dar-nos bênçãos, porque agora nós tomamos o que nos é dado: o mais importante para a Luz do Criador.

 

O que a Torah é, e mais importante, o que é o Zohar, é o Criador tirar literalmente a essência da Sua Luz e dar-nos a oportunidade de a agarrarmos. E, ao contrário do caso em que o amigo dá algo ao outro amigo, aqui compete-nos tomar isso. Então, o que aconteceu no Sinai através do Dez Mandamentos, a Revelação da Torah e, mais tarde, na manifestação do Zohar, é que o Criador tomou da Sua essência e colocou-a neste pacote Zohar e Torah. E o Criador diz à pessoa que agarra a maior parte da Luz do Zohar: "Agora obrigaste-me a estar ligado a ti, a proteger-te, a derramar Luz e bênçãos sobre ti." O Criador colocou neste mundo lugares onde a Sua essência existe e temos a oportunidade de segurar essa essência. Uma vez que o façamos, simplesmente recebemos Luz ou bênçãos; agora temos dentro de nós o aspeto mais importante da Luz do Criador e, não importa o que façamos, nós trouxemos a proteção e as bênçãos da Luz do Criador para nós mesmos.

 

Este é o segredo que subjaz ao que diz na porção Mishpatim: que havia uma aliança criada. Porque até ao tempo do Monte Sinai, a essência do Luz do Criador era algo que poderia ser atraído através do trabalho espiritual mas não poderia, por falta de uma palavra melhor, ser mantido. Até à Revelação no Sinai, podíamos atrair alguma da Luz para a nossa vida e para o mundo, mas depois veio a manifestação do que se chama Torah e Zohar, nas quais o Criador colocou a Sua essência e disse: "Agora estou a colocar-me nas tuas mãos. Agora estou a disponibilizar-me para que me segures."